O
que suas crianças andam assistindo na TV?- Uma pergunta
simples, mas, que, infelizmente, muitos pais não saberiam responder.
Com a extinção da TV
Globinho, programa matutino diário com excelentes desenhos voltados ao publico
infantil na Globo, restaram às crianças a programação da Rede TV, SBT e Band na
faixa da tarde para aqueles que consomem televisão aberta. Na TV paga, porém,
existe uma variedade de canais –muitos deles vinte e quatro horas- com
desenhos, séries e musicais infantis e infanto-juvenis.
Com o mundo globalizado, o
avanço quase total do capitalismo que culmina na busca desenfreada por
lucro, o tempo está cada vez mais escasso. Pais e mães que antes dividiam e
controlavam a educação dos filhos hoje entregam às mãos de desconhecidos:
babás, creches e o pior de tudo: a televisão.
Recheada de programas baixo
nível como Big Brother Brasil, Pânico na Band, Teste de Fidelidade e Você na TV, a TV aberta é um perigo. Não
que pagando por ela resolva muito: South
Park, Fat Family e The Simpsons são ótimas sátiras, mas, de mau gosto para
crianças. E há ainda o ~câncer~~ da ultima geração, o terror das feministas e o
perigo sempre constante: contos de fada.
Toda
menina quer ser uma princesa! Ah, que linda sua filha, é uma princesa! Qual
princesa você quer ser? Vamos fazer sua festa inspirada na Cinderela! Você é
moça, deve comporta- se como uma princesa! –Que atire a primeira
pedra quem nunca ouviu isso.
Uma vez uma imagem
compartilhada no Facebook dizia: “diga a sua filha que ela é uma boa líder,
trabalha bem em grupo, cozinha bem, escreve ótimos textos, é a melhor lutadora
de judô da escola, mas, nunca a chame de princesa”. Posso dizer desde já que
concordo?
Não pensem que estou
exagerando. E, também não pensem que vou protestar por aí pedindo a abolição
dos contos de fadas tão queridos das crianças, afinal, muitas despertam por
meio desses o amor pela leitura e, claro, isso é muito válido. Mas, contos de
fadas são perigosos e influenciam a cabeça das meninas e meninos mais do que
possamos pensar.
Todas são magras, altas, tem
cabelos lisos e impecáveis, são jovens usam vestidos deslumbrantes e- por mais
que uma história se difira da outra- tem em comum o fato de sempre estarem à
espera de um príncipe e o acharem no final. É um padrão de beleza subsequente
de um padrão de comportamento. Imagine você que uma menina gorda, baixa, com
cabelos cacheados ou crespos, sardenta e sem condições para comprar um vestido
lindo acompanhe os clássicos Cinderela e
A Bela e a Fera desde a infância.
Nesse mundinho cor- de- rosa, impecável e cruel só lhe restam duas opções:
seguir a risca o molde Disney de beleza e comportamento para conseguir um príncipe/namorado
ou aceitar que é um lixo, viver depressiva e com a certeza da solidão eterna. (le eu fugindo aos padrões \o/ ).
Primeiro ponto crucial: existe
beleza em todos os perfis. A beleza é algo mais relacionado à autoconfiança do
que qualquer outra coisa. E a sua confiança em si mesmo se desenvolve pelo que
você escuta sobre sua pessoa e pelas suas conclusões a respeito das opiniões
alheias. Se todos os dias você escuta alguém martelando e dizendo que você é
feia ou gorda (que, por sinal, não passa de uma característica física) ou alta
demais, magra demais, tem os dentes tortos ou a pele manchada dificilmente irá
conseguir se olhar no espelho e se achar bonita, pois, mesmo que seu sorriso
seja lindo, seus dentes são tortos, você foge ao padrão e se você não for como
a Coca- Cola produzida em massa com a receita pronta e igual em todas as
embalagens, você não serve. Histórias de princesas que mostram apenas um perfil
exemplificam a crueldade do mundo afirmando, implicitamente, claro, que se você
quiser ser uma princesa tem quer desse jeitinho mesmo, sem tirar nem por. E
quem disse que queremos ser uma princesa?
Ai é que tá: botaram isso na
nossa cabeça. Todo mundo quer. Toda menina quer. Até que você perceba que não
precisa ser uma princesinha perfeitinha e delicada, o estrago já foi feito.
Segundo ponto, mas, não
menos importante: somos livres para agirmos como quisermos sob a ordem da nossa
consciência. Podemos nos casar quando quisermos e se quisermos. Podemos nos
casar com homem e mulher e “felizes para sempre não
existe”.
Uma lógica simples, mas, que
os contos de fada fizeram questão de distorcer. Em Frozen, a Disney inova mostrando o amor de duas irmãs e o poder
desse sentimento. Em Malévola (que é
feminista e trata com sensibilidade o tema do estupro numa analogia que não é
para crianças) o amor se apresenta sob a relação de madrasta e enteada. Uma
~~revolução~~ já que madrastas são sempre más nos filmes.
A primeira vez que ouvi
alguém discutir sobre a merecida extinção dos contos de fada foi assistindo a
uma reportagem no Fantástico. Minha
primeira impressão deve estar sendo a mesma de vocês caso leiam a respeito pela
primeira vez aqui: absurdo; são apenas histórias.
Sim, são apenas histórias
que devem ser tratadas como estórias e não manual para ditar regras e impor
padrões. Repare bem e verá que nos contos as princesas não têm amigas mulheres
e as mulheres sempre às invejam. Isso alimenta a futilidade e o senso comum de
que mulheres são todas invejosas, fúteis e brigam entre si.
Contos de fadas devem ser
proibidos? Não. Recomendados? Também não. Tem coisa melhor? Com certeza.
Uma mulher que se mutila
para ir atrás de um homem que viu uma única vez num navio: essa é Ariel. Uma
mulher que se casa com um monstro –que é rico-, mas, passa a ama-lo
incondicionalmente: prazer, Bela. Uma mulher que está dormindo, desmaiada,
morta e será despertada quando receber um beijo de amor que pode ser de
qualquer um e terá de se casar com ele gostando do “amado” ou não: quem não
conhece a Bela Adormecida?
Mulan, Jasmine, Frozen,
Valente e Malévola (releitura de A Bela Adormecida) Tiana e Branca de Neve seriam as
únicas histórias realmente contáveis e com um mínimo de sentido. Esses
clássicos são tão poderosos e influentes que além de encher a cabeça das meninas
de abobrinha, afetam aos garotos também.
Sim, pois, se eles assistem
contos de fada e são ensinados que as moças irão esperar por eles e são lindas
é exatamente assim que eles vão querer ser na vida real. Um contexto machista e
muito presente.
Não seja uma princesa. Ou
seja, se lhe convier, mas, seja do seu jeito.
Contos de fada podem parecer
inofensivos, bonitinhos, amenos e saudáveis, mas, são cruéis, malignos e
arquitetados para fazer lavagem cerebral nas suas crianças. Ok, talvez eu tenha
exagerado (apenas talvez), mas, não
deixa de ser uma verdade afinal são estórias criadas em épocas passadas, que
venceram a barreira dos anos, mas, não mudaram conforme o tempo passava e a
sociedade evoluía. Eles não refletem a mulher moderna e múltipla que existe
hoje, mas, tentam ensina- las qual é o seu lugar.
Assim como a boneca Barbie
não tem versões gordas, com cabelo black
power nem tatuagens ou versão metal, princesas não têm e não são e nunca vão
ser, mas, o segredo não é tentar mudar as personagens fictícias, mas, sim as
meninas reais. Não adianta tentar eliminar as princesas que já existem, matar
todas, proibir a venda dos livros, porque isso é impossível, mas, é justo mudar
o conceito quando forem pensar em criar novas e mostrar que são mulheres de
verdade influenciando as histórias e não o contrário.
Quebec M.

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