segunda-feira, 28 de julho de 2014

Contos de fada valem realmente a pena?

     O que suas crianças andam assistindo na TV?- Uma pergunta simples, mas, que, infelizmente, muitos pais não saberiam responder.
     Com a extinção da TV Globinho, programa matutino diário com excelentes desenhos voltados ao publico infantil na Globo, restaram às crianças a programação da Rede TV, SBT e Band na faixa da tarde para aqueles que consomem televisão aberta. Na TV paga, porém, existe uma variedade de canais –muitos deles vinte e quatro horas- com desenhos, séries e musicais infantis e infanto-juvenis.
     Com o mundo globalizado, o avanço quase total do capitalismo que culmina na busca desenfreada por lucro, o tempo está cada vez mais escasso. Pais e mães que antes dividiam e controlavam a educação dos filhos hoje entregam às mãos de desconhecidos: babás, creches e o pior de tudo: a televisão.
     Recheada de programas baixo nível como Big Brother Brasil, Pânico na Band, Teste de Fidelidade e Você na TV, a TV aberta é um perigo. Não que pagando por ela resolva muito: South Park, Fat Family e The Simpsons são ótimas sátiras, mas, de mau gosto para crianças. E há ainda o ~câncer~~ da ultima geração, o terror das feministas e o perigo sempre constante: contos de fada.

     Toda menina quer ser uma princesa! Ah, que linda sua filha, é uma princesa! Qual princesa você quer ser? Vamos fazer sua festa inspirada na Cinderela! Você é moça, deve comporta- se como uma princesa! –Que atire a primeira pedra quem nunca ouviu isso.
     Uma vez uma imagem compartilhada no Facebook dizia: “diga a sua filha que ela é uma boa líder, trabalha bem em grupo, cozinha bem, escreve ótimos textos, é a melhor lutadora de judô da escola, mas, nunca a chame de princesa”. Posso dizer desde já que concordo?
     Não pensem que estou exagerando. E, também não pensem que vou protestar por aí pedindo a abolição dos contos de fadas tão queridos das crianças, afinal, muitas despertam por meio desses o amor pela leitura e, claro, isso é muito válido. Mas, contos de fadas são perigosos e influenciam a cabeça das meninas e meninos mais do que possamos pensar.

     Todas são magras, altas, tem cabelos lisos e impecáveis, são jovens usam vestidos deslumbrantes e- por mais que uma história se difira da outra- tem em comum o fato de sempre estarem à espera de um príncipe e o acharem no final. É um padrão de beleza subsequente de um padrão de comportamento. Imagine você que uma menina gorda, baixa, com cabelos cacheados ou crespos, sardenta e sem condições para comprar um vestido lindo acompanhe os clássicos Cinderela e A Bela e a Fera desde a infância. Nesse mundinho cor- de- rosa, impecável e cruel só lhe restam duas opções: seguir a risca o molde Disney de beleza e comportamento para conseguir um príncipe/namorado ou aceitar que é um lixo, viver depressiva e com a certeza da solidão eterna. (le eu fugindo aos padrões \o/ ).
     Primeiro ponto crucial: existe beleza em todos os perfis. A beleza é algo mais relacionado à autoconfiança do que qualquer outra coisa. E a sua confiança em si mesmo se desenvolve pelo que você escuta sobre sua pessoa e pelas suas conclusões a respeito das opiniões alheias. Se todos os dias você escuta alguém martelando e dizendo que você é feia ou gorda (que, por sinal, não passa de uma característica física) ou alta demais, magra demais, tem os dentes tortos ou a pele manchada dificilmente irá conseguir se olhar no espelho e se achar bonita, pois, mesmo que seu sorriso seja lindo, seus dentes são tortos, você foge ao padrão e se você não for como a Coca- Cola produzida em massa com a receita pronta e igual em todas as embalagens, você não serve. Histórias de princesas que mostram apenas um perfil exemplificam a crueldade do mundo afirmando, implicitamente, claro, que se você quiser ser uma princesa tem quer desse jeitinho mesmo, sem tirar nem por. E quem disse que queremos ser uma princesa?
     Ai é que tá: botaram isso na nossa cabeça. Todo mundo quer. Toda menina quer. Até que você perceba que não precisa ser uma princesinha perfeitinha e delicada, o estrago já foi feito.
     Segundo ponto, mas, não menos importante: somos livres para agirmos como quisermos sob a ordem da nossa consciência. Podemos nos casar quando quisermos e se quisermos. Podemos nos casar com homem e mulher e “felizes para sempre não existe”.
     Uma lógica simples, mas, que os contos de fada fizeram questão de distorcer. Em Frozen, a Disney inova mostrando o amor de duas irmãs e o poder desse sentimento. Em Malévola (que é feminista e trata com sensibilidade o tema do estupro numa analogia que não é para crianças) o amor se apresenta sob a relação de madrasta e enteada. Uma ~~revolução~~ já que madrastas são sempre más nos filmes.
     A primeira vez que ouvi alguém discutir sobre a merecida extinção dos contos de fada foi assistindo a uma reportagem no Fantástico. Minha primeira impressão deve estar sendo a mesma de vocês caso leiam a respeito pela primeira vez aqui: absurdo; são apenas histórias.
Sim, são apenas histórias que devem ser tratadas como estórias e não manual para ditar regras e impor padrões. Repare bem e verá que nos contos as princesas não têm amigas mulheres e as mulheres sempre às invejam. Isso alimenta a futilidade e o senso comum de que mulheres são todas invejosas, fúteis e brigam entre si.
     Contos de fadas devem ser proibidos? Não. Recomendados? Também não. Tem coisa melhor? Com certeza.
     Uma mulher que se mutila para ir atrás de um homem que viu uma única vez num navio: essa é Ariel. Uma mulher que se casa com um monstro –que é rico-, mas, passa a ama-lo incondicionalmente: prazer, Bela. Uma mulher que está dormindo, desmaiada, morta e será despertada quando receber um beijo de amor que pode ser de qualquer um e terá de se casar com ele gostando do “amado” ou não: quem não conhece a Bela Adormecida?
     Mulan, Jasmine, Frozen, Valente e Malévola (releitura de A Bela Adormecida) Tiana e Branca de Neve seriam as únicas histórias realmente contáveis e com um mínimo de sentido. Esses clássicos são tão poderosos e influentes que além de encher a cabeça das meninas de abobrinha, afetam aos garotos também.
     Sim, pois, se eles assistem contos de fada e são ensinados que as moças irão esperar por eles e são lindas é exatamente assim que eles vão querer ser na vida real. Um contexto machista e muito presente.
     Não seja uma princesa. Ou seja, se lhe convier, mas, seja do seu jeito.
    Contos de fada podem parecer inofensivos, bonitinhos, amenos e saudáveis, mas, são cruéis, malignos e arquitetados para fazer lavagem cerebral nas suas crianças. Ok, talvez eu tenha exagerado (apenas talvez), mas, não deixa de ser uma verdade afinal são estórias criadas em épocas passadas, que venceram a barreira dos anos, mas, não mudaram conforme o tempo passava e a sociedade evoluía. Eles não refletem a mulher moderna e múltipla que existe hoje, mas, tentam ensina- las qual é o seu lugar.
    Assim como a boneca Barbie não tem versões gordas, com cabelo black power nem tatuagens ou versão metal, princesas não têm e não são e nunca vão ser, mas, o segredo não é tentar mudar as personagens fictícias, mas, sim as meninas reais. Não adianta tentar eliminar as princesas que já existem, matar todas, proibir a venda dos livros, porque isso é impossível, mas, é justo mudar o conceito quando forem pensar em criar novas e mostrar que são mulheres de verdade influenciando as histórias e não o contrário.
Quebec M.


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