Hoje, daqui a pouco, a novela Em Família, do autor Manoel Carlos, chega ao fim. Não é costume do blog opinar nesse assunto e muito menos tentar criar teorias-como fazem as revistas e sites sobre TV- para o desfecho. Quem fica com a mocinha? Quem matou? Quem morrerá? O que acontece ao vilão? etc. tanto que não faremos. Somos um blog sobre livros, cultura e como diz o slogan no banner: opiniões interessantes. Não vejo problema em dissertar sobre o enredo e as tramas de uma novela (particularmente não sou fã, mas, desde que valha a pena, histórias sempre serão histórias) mas, creio que não convenha a vocês e quem se interessar basta pesquisar e encontrar de tudo e mais um pouco na internet.
Eu quero falar sobre o reflexo humano de uma novela, afinal, elas falam para milhões de pessoas, são comentadas, viram debate, são tuitadas e retuitadas nas redes sociais. Em Família pecou com a passagem de tempo sem nexo da segunda fase para a terceira- e mais longa. O triângulo entre mãe, ex noivo e filha não convenceu. O casal principal era sem química e o enredo caiu diante da repetição da fórmula já gasta do Maneco; protagonista chamada "Helena", ricos no Leblon e pobres "engraçados" e sem classe. Tudo isso culminou na audiência raramente chegando à casa dos 30 pontos de ibope - muito pouco para o horário nobre da Globo.
Mas, cabe discussão ai! Abordando temas como alcoolismo, apoio e recuperação, a história só não foi melhor, pois, mesmo com tanta coisa bacana para ser mostrada, os diretores insistiam em manter a novela arrastada. Preconceito, a dor de não poder ser mãe, loucura e aceitação também permearam a trama. Gostaria, porém, de destacar dois pontos: estupro e homossexualidade. Temas polêmicos que, quanto mais falados, mais são aceitos e desmitificados.
Estupro: 20 anos atrás a personagem de Neidinha (Neide Machado) foi cercada e estuprada por três homens enquanto andava na rua sozinha à noite e engravidou. Sozinha? À noite? Uma moça bonita? Que absurdo! É uma lástima, mas, ela mereceu. Acontece.
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| Por respeito não coloquei imagens "piores" aqui. Deem Google. Não é difícil. |
Não duvide: já ouvi isso. Por mais que estejamos cansados de saber que independente da roupa que uma pessoa use, mesmo que ela esteja nua na sua frente, se ela não lhe der permissão de tocar-lhe é simples: não toque. Você não pode. Mas, infelizmente, essa lógica tão bem desenhada não entra na cabeça das pessoas. Neidinha é negra e saiu uma pesquisa revelando que a sociedade -homens e MULHERES- ainda veem negras como objeto sexual. A cor da pele não é algo que deva ser importante, mas, isso reforçou ainda mais o caráter de culpa por ser vitima atribuída ao estupro da personagem. Não que isso tenha sido retratado na TV porque realmente não foi.
A culpabilização das vitimas de estupro, algo tão comum, não foi retratada, mas, calharia bem. Mostraria uma realidade que existe, que todos veem, mas, que é difícil de aceitar. A personagem é secundária e em grande parte da novela o que lhe aconteceu "passou em branco", sem destaque. A obsessão da filha dela por descobrir quem era seu pai fez com que a menina decidisse correr atrás dos criminosos. A mulher acabou encontrando o amor num homem mais jovem e, armada com coragem, pois, é preciso muita para tal, contou para o namorado com quem se casou tudo o que se passou, o motivo dos seus traumas e medos. Ele decidiu apoia- la e ama- la. Bonito. Lindo. Mas, não é a verdade.
A culpabilização das vitimas de estupro, algo tão comum, não foi retratada, mas, calharia bem. Mostraria uma realidade que existe, que todos veem, mas, que é difícil de aceitar. A personagem é secundária e em grande parte da novela o que lhe aconteceu "passou em branco", sem destaque. A obsessão da filha dela por descobrir quem era seu pai fez com que a menina decidisse correr atrás dos criminosos. A mulher acabou encontrando o amor num homem mais jovem e, armada com coragem, pois, é preciso muita para tal, contou para o namorado com quem se casou tudo o que se passou, o motivo dos seus traumas e medos. Ele decidiu apoia- la e ama- la. Bonito. Lindo. Mas, não é a verdade.
A verdade é que vivemos numa sociedade patriarcal ao extremo onde os homens são viris, mas, exigem mulheres castas ~cadê a lógica?~. Contar para alguém que foi estuprada é quase uma confissão, uma carta assinada de culpa. As vitimas são oprimidas, silenciadas, envergonhadas, humilhadas e pior: culpadas. Um debate interessante que poderia ter sido mais explorado. Mesmo que não aumentasse a audiência, se apenas fizesse as pessoas refletirem, já ajudaria. Não é preciso ser feminista para defender as vitimas de estupro. É preciso apenas ser cidadão, homem ou mulher.
Homossexualidade: Clara (Giovanna Antonelli) e Marina (Tayna Múller) protagonizaram o primeiro beijo lésbico nas novelas da TV brasileira, na Globo. Entre dois homens já havia ocorrido na anterior Amor Á Vida. A lástima e decepção dos fãs veio quando o primeiro beijo não passou de um selinho. Esperávamos mais. Todas nós. O Twitter se encheu de gente comentando coisas como "lésbica sabe beijar, viu? Ignorem a cena da novela (risos)". Sim, eu garanto: lésbicas sabem beijar. Algumas sim, outras não -assim como os héteros-, mas, enfim.
O ponto de partida é um beijo como qualquer outro (bem menos apimentado, porém) mas, os limites para o debate são infinitos. E quando eu digo debate não é discutir com pastor da Universal se Deus aceita ou não, se é certo ou errado, mas, sim, debater nos bares, nas casas, nas escolas, com as crianças... Enxergar seus próprios preconceitos, rever seus conceitos e disseminar a tolerância, o respeito e o amor. Crenças religiosas são a base de muita gente, mas, independente de qual ela seja, não pode- se confundir liberdade de expressar sua fé com liberdade de oprimir por meio dela.
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| Beijo entre mulheres foi histórico e revolucionário para os padrões da TV brasileira. |
90% das pessoas que são contra os gays se baseiam em princípios religiosos, bíblicos. Fé não se discute, religião sim. As pessoas estão certas por pensar assim de forma tão arcaica? Pensemos: e se fosse o contrário? E se gays fossem a maioria e os héteros fossem oprimidos? Você que é hétero gostaria de ser humilhado, de sofrer por ser "estranho" de ter que viver com medo e receoso pela resposta dos seus pais ao "assumir" (hétero não tem que assumir nada) que gosta de alguém do mesmo sexo? O tema é amplo e não é uma novela que acabará com a homofobia. Debates e mais debates são válidos e bem vindos. Adoro esse tema, adoro polêmicas e não podia deixar de passar aqui para comentar.
Uma curiosidade é que apenas 10% da população realmente é hétero. Todo mundo se apressa em dizer cheio de orgulho e convicção que faz parte dessa minoria, mas, basta rever suas ideias e por em xeque toda essa certeza. Será? Será que o seu preconceito não é uma forma de esconder aquilo do qual você tem medo?
Lembrando que Clarina (Clara + Marina) se casaram e beijaram- se, beijo "de verdade", sob aplausos dos presentes e dos espectadores - aplaudi Félix e Nico também. Que sejam os primeiros de muitos. É bom para fazer as pessoas se enxergarem.
Acreditam que eu ouvi um cara dizer que "toda novela agora tem essa bobagem" [beijo gay] ? Foram só duas em sequencia no horário das nove. Não são todas as novelas e sequer em todos os horários. No mesmo dia um outro homem disse que homossexuais não devem exibir - se na rua, como se andar de mãos dadas fosse exibição. Todo mundo sabe qual é o limite. Ninguém vai fazer sexo em público na frente da sua filhinha, mas, beijo vai ter sim, isso é super normal e ao invés de "protegê- la" e privar- se de dar explicações -culpando Deus e o mundo pela sua irresponsabilidade-, deveria agir com o minimo de sensatez e expor uma situação que é natural, dizer que é amor. Apenas amor. Gay não tem que se esconder. As pessoas tem que amar. Foi apenas a segunda novela com beijo homo afetivo, mas, vai ter mais. Eu boto fé.
A forma como o filho de Clara levou a situação numa boa, fazendo perguntas pertinentes à uma criança provou que a confusão na cabeça das crianças quem cria são vocês, adultos, que veem pecado em tudo. Meu pai, um dos mais homofóbicos que conheço, disse, para minha surpresa que ninguém escolhe ser o que é. Ninguém escolhe ser gay. Ninguém optaria pelo preconceito e a violência. E ninguém pode escolher se esconder, pois, não há do que se envergonhar. Há apenas amor e amor é lindo. Coisas bonitas não envergonham.
Esse é o legado de Em Família. Se estou aqui dissertando é porquê de algo serviu e cada gota no oceano é importante, pois, se retirássemos uma a uma no fim não restaria nada.
Quebec M.


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