terça-feira, 15 de julho de 2014

Literatura nacional atual perde valor quando menosprezada

     Inicio esse post com uma pergunta: quantos e quais livros nacionais você leu recentemente?
     A resposta da maioria com certeza vai ser: nenhum. Uma pena. Uma grande lástima. 
Fazendo Meu Filme, Paula Pimenta é só um dos livros nacionais
populares. Muitos outros deveriam ser valorizados.
     Por alguma razão da natureza (existem teses por aí, mas, creio que dissertar sobre elas não convenha aqui) os brasileiros são derrotistas. O sentimento de patriotismo aflora em cada brasileiro, de Norte à Sul, Leste à Oeste, uma vez a cada quatro anos: durante a Copa do Mundo. Com a goleada sofrida pela nossa seleção contra a Alemanha, todo o sentimento de união da Nação e orgulho da Pátria se dissiparam e os brasileiros voltaram a estarem cabisbaixos, com ar de sofredor, ansiando por morar em outro país e desconfiado quanto à qualquer coisa boa que aconteça por aqui. Talvez essa analogia com o futebol não esteja fazendo sentido, mas, é simples: assim como amamos o Brasil durante a Copa (até ele ser eliminado, claro. Depois disso "eu estava torcendo para a Alemanha") odiamos nosso país no período anterior e subsequente.

      Ódio? Não é uma palavra muito forte? Não. 
    Consumimos música americana e inglesa, (com o mundo globalizado e a hegemonia do Inglês, é compreensível), lotamos salas de cinema para assistir lançamentos de Hollywood, lanchamos no McDonald's, usamos Nike, Adidas e até produtos nacionais tem nomes americanos. Palavras de origem estrangeira fazem parte do nosso vocábulo naturalmente. O que isso tem a ver com os livros? Tudo. Simplesmente tudo.
     Se você reparar, 90% dos livros que viram febre no BRASIL, -os chamados "modinhas- são assinados por estrangeiros. A Culpa é das Estrelas, Crepúsculo (até hoje não entendo o porquê), Harry Potter, apenas para não citar outros. Se exercitar um pouquinho mais o cérebro não vai ser difícil notar que nem todas essas obras respeitadas e famosas merecem o respeito e a fama que tem. Muitos são apenas livros com exagerado apelo adolescente, uma história nada original e igual à centenas de outras e com um investimento em propaganda forte. Propaganda. Marketing. Isso resume.
     As editoras sabem que o brasileiro é derrotista. Ônibus lotados, trânsito caos, roubos, furtos, assassinatos, estupros... Tudo isso agrava esse sentimento de baixa auto estima que já é tão presente. Volto a dizer: as editoras sabem. Todas as marcas, na verdade. Por que investir num autor nacional - mais um pobre coitado por aí- se podemos dar a eles o "melhor" que os Estados Unidos produzem? Afinal, os EUA é lindo, rico, não existe pobreza e é o sonho de todo mundo na era capitalista.  A lógica é simples: os editores e representantes dos grupos editoriais estão sempre de olho nos lançamentos lá fora, tem contatos com editoras estrangeiras e assim que algo inclina para o lado do sucesso chega ao Brasil.    É mais fácil comprar os direitos de livros vindos de fora do que dar chance ao que está dentro. 
     Só de alguém querer ser autor no Brasil ele já merece os créditos. Num país onde a educação é precária, a cultura não chega para todos (entenda- se por "cultura" a arte, dança etc.), programas chulos lotam a programação aberta e o incetivo a leitura é quase 0 e aleatório, querer escrever e ousar tentar viver disso é uma loucura ou simplesmente um sonho.
"I have a dream"- lembram- se dessa frase? Quem não conhece saiba que ela foi iconicamente dita por Martin Luther King, um pastor americano que lutava contra o racismo. Sonhos são sonhos e merecem respeito. Creio eu -não devo ser a única- que é dever das editoras brasileiras investir nos sonhos de brasileiros. Seria muito mais bonito se não precisássemos  esperar a tradução de um livro, pois, ela já estaria em Português. Ao invés de reforçar a imagem de um exterior idealizado como perfeito, podia- se mostrar a esse povo tão sofredor que há motivos para orgulhar- se do Brasil. Há motivos para dizer que "somos brasileiros com muito orgulho com muito amor" fora da época de futebol.
     Isso se aplica a tudo. Quem nunca ouviu um amigo dizer que "filme brasileiro não presta" que atire a primeira pedra. Isso até conhecer Tropa de Elite. Ou se deliciar com uma das comédias simplesmente hilárias muito melhores que produções "hollywoodianas". "Brasil só tem música ruim". O quê? Como? Já ouviu Malta? Conhece uma mulher chamada Ana Carolina? Existe o lado bom e ruim em tudo. Nem todo romance popularesco "Made in the USA" vale a pena. Mas, mesmo assim, já vi várias pessoas deixarem de levar o produto da casa que estava exposto ao lado para mergulhar na leitura do tal romance. 
     Machado de Assis, Jorge Amado e tantos outros donos de obras como Capitu e Gabriela são clássicos e clássicos sempre serão clássicos. Mas, são antigos. A linguagem é outra. O tempo é totalmente diferente. Livros não tem prazo de validade, mas, os anos passam e se você continua preferindo autores consagrados como esses que citei, ótimo. Ótima leitura. Mas, se você - como eu- gosta mais de livros atuais, de fantasia ou mistério, invista em algo da casa. Vale a pena. 
     Thalita Rebouças (Fala Sério, serie), Paula Pimenta (Fazendo Meu Filme, série) Eduardo Spohr (A Batalha do Apocalipse) e tantos outros provam que há diversidade -contrariando os que afirmam que no Brasil só tem romance besta-, há talento e há ainda mais que ficam desconhecidos. Eu confesso: a maioria dos livros que li até hoje eram internacionais. Mas, não para poder dizer que entendo de literatura e grandes autores. Nunca liguei para isso. Lia o que achava pertinente e interessante e lia de tudo. Pegava livros nas bibliotecas públicas das escolas onde estudava e em colégios você encontra quase sempre obras nacionais. Um dos poucos títulos estrangeiros que vi lá foi "As Viagens de Gulliver". Que as bibliotecas devem valorizar o que há no Brasil eu concordo, mas, daí a limitar a leitura para livros bobos, pequenos, juvenis e infantis é querer demais. É ir contra o que eu disse. É menosprezar e como o título desse texto diz: a literatura nacional perde valor quando menosprezada.
     Meu livro preferido é americano. Ok. Sem problemas. Mas, isso não quer dizer que vá sempre ler coisas importadas até porquê existem outros do mesmo gênero tão bons quanto.
Uma vez um ex editor literário e resenhista que trabalhou na Editora Record, Rocco e outras, me disse que em muitos casos a editora sequer lia o original que recebia. Se lia destinava um estagiário para tal e em quase todos os casos não se importava em dar uma resposta indicando ao autor em que ele podia melhorar ou coisa do tipo. Se, por algum milagre do Céu, eles topassem a publicação, você teria que pagar por ela, comprar seus próprios exemplares e não haveria marketing. Estaria apenas como mais um no catálogo. Compreendo que há uma série de questões logísticas para tal, mas, o minimo de respeito com os livros nacionais seria bom.
     J.K Rowling encabeça a lista de autores estrangeiros que superaram o número de vendas de clássicos brasileiros. Não venham com comentários do tipo: "nada no Brasil presta". "Brasil é lixo". O Brasil precisa evoluir e vai, se formos felizes, mas, o progresso nunca virá enquanto não houver ordem e a ordem só vai vir quando ela for nacional, cultuada e respeitada. Quando fico sabendo de brasileiros fazendo sucesso lá fora me encho de orgulho e sempre comento "poxa, que legal". Seja nas artes, na dança, no cinema. Uma sentimento melancólico bate, pois, se eles precisaram sair foi porque não encontraram aqui base e apoio suficientes.
     Rubanne Damas, Dani Winchester, dentre tantos outros, são apenas dois nomes que cito para vocês como escritores brasileiros, jovens e atuais, que merecem respeito e um dia serão respeitados se o povo souber reconhecer o que é bom.
    Fazer uma pessoa sem aptidão gostar de ler é difícil, mas, seria mais fácil se dessemos à ela livros com a cara do Brasil, narrados por personagens brasileiros, em locais que conhecemos. A identificação é certa, pois, não importa se você está no México ou em Paris, se você encontrar um conterrâneo a empatia é previsível.
     Soube de um caso de um autor brasileiro que conseguiu publicar seu livro fora do Brasil e depois conquistou o reconhecimento em casa. Se o mundo exterior que tanto amamos aceitou o seu trabalho, quem somos nós para dizer "não"?
     E se ao invés de precisarmos importar o que é nosso começarmos a exportar nossos talentos e, como eles fazem, mostrar ao mundo quem somos e reproduzir o Brasil em cada página traduzida e lida pelos quatro cantos mundo a fora? #GoodIdeia, oops, #BoaIdeia.

Quebec M.

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