sábado, 12 de julho de 2014

[RESENHA] Prova de Fogo

Literatura nacional atual
pode valer a pena.
Autor: Pedro Bandeira
Editora: Ática
Número de páginas: 87
Nota: 3,0
    A resenha desse livro me foi solicitada pela professora de Língua Portuguesa na escola. Como amante da literatura de qualidade, sou fã de autores como G.R.Martin e Rick Riordan. Dedicar- me à leitura de uma obra nacional, a principio, parecia um tanto quanto desnecessário. Não estou dizendo que não existam bons autores brasileiros, veja bem, existem, sim, e são muitos (a maioria desconhecidos), mas, é fato que está empreguinado em nosso conhecimento sobre literatura que autores nacionais podem ser bons, mas, desde que sejam antigos, do século passado. A fama de Machado de Assis e Jorge Amado até os dias de hoje comprova isso.
     Pedro Bandeira é um autor atual, que escreve poemas, autor infanto- juvenil com mais de oitenta títulos publicados e premiados. Vem daí o meu receio.
     Prova de Fogo não decepciona. Gil é um garoto apaixonado por Pris, babá na casa de um casal de americanos, e é logo no primeiro capítulo que ela falta à aula e ele fica preocupado. O drama adolescente começa ai; todos faltamos à escola de vez em quando, é normal e justificável. Ficar preocupado, desesperado e aflito porque a pessoa amada simplesmente não está presente é típico dos romances adolescentes aonde se quer tudo e nada efetivamente acontece. A salvação é que o drama acaba ai. Tão logo como começou.

A parte da fuga da escola, da “invasão” à casa dos Bradford – pais de Mark, menino de quem Pris é baby-sitter – deveria ser elegante, mas, é engraçada. A obstinação do garoto é curiosa e, admitamos, o que te motiva a continuar a leitura.
     O bom do livro é que ele é ágil e a leitura não fica enfadonha. Uma curiosidade é que os personagens secundários não têm seus nomes citados, portanto, vai da interpretação de cada leitor identificar quem é quem. O enredo é simples: um menino sequestrado que mobiliza a família toda para ajudar –mesmo que apenas moralmente- no resgate. O que ninguém sabe, porém, é que a própria família está envolvida na trama. Esse é o grande destaque do livro. Se fosse um sequestro “comum” com bandidos e cativeiro, seria mais um romance policial do que mistério. O passo a passo da descoberta de quem faz parte do circo é delicioso e envolve, mas, peca por se dar de forma óbvia demais.
     Num momento não fazemos ideia do que está se passado, noutro, Gil – O inteligente- descobriu tudo, só falta encontrar um meio de desmontar a situação. Os detalhes que ele descobre são impressionantes e não confirmam o que o autor diz sobre ele na segunda página: “Gil era médio”. Gil não é médio. Ele é fora do normal.
     O tempo todo – com as suscetivas revelações- você é tentado a voltar algumas páginas e conferir se a informação estava ali ou se Pedro Bandeira pecou e aquilo surgiu do nada. A resposta é: estava. Eu que li esse livro duas vezes posso afirmar que os detalhes para as descobertas estão presentes. Bandeira toma o cuidado de inseri- los sem grande atenção para causar surpresa, mas, não se esquece de produzir sentido, nexo entre a primeira parte - breve introdução e a segunda e terceira parte – desenvolvimento e final, respectivamente.
Primeira, segunda e terceira parte são conceitos que eu criei, porque não existem nos livros. A história é divida em quinze capítulos –pouco- e talvez por esse motivo tudo acontece rápido, seguindo uma lógica simples de que um acontecimento sucede ao outro, mas, sem complicação, complexidade ou drama.
    Eu adoro bons dramas e seria ótimo se o autor tivesse investido mais nisso. Explorado a dor da família com um bebê desaparecido, a aflição de estar com os bandidos acolhidos dentro de casa e até mesmo a história de amor entre Pris e Gil, que, por sinal, é um mero pano de fundo. Pris é estática, nada atraente e só sabe chorar e fazer o que Gil manda. Como feminista tenho que afirmar que irrita um pouco essa face de “mulher sem sal” que Bandeira escolheu para representar.
     A história é ilustrada em preto e branco o que facilita para aos não habituados à leitura, mas, limita para quem gosta de imaginar. Não que os desenhos tirem o mérito da história – é um caso a parte-, mas, me incomodaram um pouco.
     O fato de tudo acontecer num único dia, num bairro fictício e na casa de pessoas ricas (não o suficiente para pagar o resgate, claro) deixa pouco espaço para interpretação, viagem e êxtase. Uma confissão: eu e um amigo ficamos com medo na parte que ele narra tudo o que descobriu. Eu sou medrosa, nem adianta, mas, meu amigo admitiu isso e ainda confessou que parou de ler à noite por medo. Bandeira cria um bom clima de suspense. Tanto que Prova de Fogo é – para mim- um livro de suspense e romance e não o contrário.
     O final (adoro falar dos finais) é quase tradição dos livros de adolescentes. O casal se acerta, alguém sai como herói e a última frase é um convite para tomar sorvete ou a notícia aguardada da faculdade; os autores usam disso, pois, a adolescência é incerta e é só uma fase que acaba logo, deixando suas marcas. Encerrar o livro deixando um clima de incerteza no ar é uma forma de imitar a vida e suas lutas e duvidas diárias.
     Esse não foi o primeiro livro brasileiro que li, mas, a primeira resenha postada. Clarisse, Capitães de Areia, Gabriela e Capitu estão na minha lista para os próximos meses e logo que concluir a leitura escreverei aqui minha opinião, como de costume. O Brasil é um país rico e diverso e pode ser campeão não apenas no mundo da bola (#nocommentsaboutthecup2014). Basta incentivar a leitura e a cultura e valorizar o que produzimos. Clássicos do século XX valem totalmente a pena, mas, temos coisas novas –Thalita Rebouças, Paula Pimenta- que merece igualmente os créditos.
     Em suma: Prova de Fogo faz jus ao título atrativo e merece algumas horas dedicas à leitura. Nada excepcional, porém. Um livro nacional, toda via.
Quebec M.



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