Esse post inaugura a tag Geek Life, que, incrivelmente, foi a base desse blog, mas, nunca utilizada aqui.
Eu explico: Geek Life são textos enviados por fãs do blog por e- mail, Fan Page no Facebook ou entregues pessoalmente. Faz tempo que recebi o primeiro texto - uma surpresa muito boa- mas, por estar ocupada acabei não postando. Foi minha best quem escreveu portanto, ela me perdoou. Mas, enfim, o que uma pessoa fala especificamente nesse tal texto?. Geek Life, em inglês, significa "vida de nerd". Resumindo é isso: o menino ou menina que julga estar dentro dessa "categoria" escreve sobre sua vida, preferências, amizades, namoro e qualquer outra coisa. Nossa equipe avalia e publica. O primeiro texto não é da minha amiga, mas, sim de uma menina que mandou e pediu anonimato. Por quê? Ela fala de um tema delicado e tenso: o famoso e odiável bullying. Eu insisti e deixei claro que ela não precisava ter vergonha, mas, ela ratificou sua posição em não querer se expor. Lógico, eu aceitei e aí está o relato dela. #SayNoToBullying
Meu nome é J.L, tenho 16 anos atualmente.
Nunca quis me fazer de vítima em nenhuma situação até porque mesmo quando realmente era a vítima insistiam em dizer que eu estava exagerando.
Gosto de reggae desde pequena e depois de tudo que passei aprendi uma lição com a filosofia dessas músicas: paz e amor. Pena que nem sempre vivi em paz e que nem todo mundo foi só amor comigo.
Tudo começou aos doze anos. Minha única amiga de infância conheceu outras pessoas e no novo colégio eu estava o tempo todo sozinha. Sempre com um livro na mão percebia as pessoas me olhando e sussurrando ao meu respeito. Fingia não notar.
Alguma coisa com a minha roupa desleixada? Ou seria meu cabelo bagunçado? Será que coloquei par de meias diferentes outra vez? Nunca saberia do que eles falavam, mas, eles nem imaginam o que esses cochichos me fizeram.
Um dia estava voltando para casa após o exaustivo ~~e idiota~~ treino de vôlei. Correndo para não me atrasar mais, acabei tropeçando nos meus próprios pés e cai. Dois meninos e uma garota boazuda que estavam por perto começaram a rir. Tentei me levantar, mas, enquanto catava a mochila que havia caído um deles chegou por trás e me empurrou. Caí novamente e de cara no chão. Sem palavras, apenas me levantei e fui embora ouvindo eles gritarem coisas como "feia" "magrela" "sem sal" "nariguda" e "nerd".
Cheguei em casa chorando, mas, não contei o que havia acontecido a ninguém. Dia após dia era assim; eles me humilhavam, xingavam, gritavam ofensas e eu tentava ignorar. Os meses passaram e quando dei conta já eram anos de sofrimento se arrastando.
O pior dia foi quando estava num parque -fora do âmbito escolar onde ocorriam as ofensas- lendo e bebendo suco. Um grupo de meninos apareceu, começaram a rir de mim de longe e logo se aproximaram. Jogaram meu livro de mão em mão enquanto eu simplesmente observava, inútil e estática. Me empurraram e como sou franzina me desequilibrei e caí. Os olhos encheram d'água, mas, não ia permitir que me vissem chorar. Segurei firme, me levantei e olhei duro para eles. Não hesitaram nem um segundo antes de jogar o suco na minha cara. Havia algumas pessoas por perto, mas, ninguém fez nada. O que eu esperava que eles fizessem, afinal? Eu não gritei, não corri, não pedi ajuda... Simplesmente olhei. Olhei e vi meu livro ser rasgado. Vi eles puxarem meu cabelo -nesse caso em senti também. Os olhos pediam que eu deixasse as lágrimas caírem, mas, eu estava firme e focada apenas em não ceder sua vontade. Quando dei por mim caí desmaiada. Nenhum deles me ajudou. Simplesmente saíram correndo, pois, ~~enfim~~ alguém veio me ajudar.
Fui parar no hospital e diagnosticada com depressão e desnutrição, afinal, uma culminou na outra. Meus pais entraram em choque com a realidade que estava sob os olhos deles e eles não viram. Sou filha única e eu lembro que minha mãe apenas disse: "minha única filha, minha princesa e eu ignorei". -Ela caiu no choro. Eu dormi por algumas horas, tomei soro, tive alta e fui para a casa. Conversei com meus pais, expus a situação e eles entenderam. Pela primeira vez ninguém disse que eu estava exagerando ou que bastava ignorar.
Eles foram até o colégio, a diretora fingiu que nunca soube o que acontecia (todo mundo sabia) e pediu desculpas. Os meninos foram expulsos, mas, às garotas coube apenas pedir desculpas. Motivo? Não sei. Elas fizeram algo igualmente ruim.
Hoje tenho 16, leio, escrevo, jogo videogame, passo horas na internet, tenho poucos amigos e troco festas badalas por eventos culturais. Hoje me olho no espelho e pergunto a mim mesma: "será que tudo isso é tão errado assim?".
A resposta é "não". Não é errado ser você. Errado é a sua natureza ser oprimir e desrespeitar. Errado é me julgar e me ofender apenas por ser diferente. Mas, ops, esperem: quem, afinal, é igual?
Coração é terra onde não se pisa. Onde não se enxerga. Onde não se habita. Diga não ao bullying. Não pratique e não aceite que façam isso com você.
Há casos de bullying que terminam em morte e suicidio e confesso: enquanto segurava as lágrimas e não chorava eu pensava: quando eu me matar pelo menos vou saber como vou morrer.
Quebec M. by L.C

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